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O encontro Mulheres com Sâmia 5000, realizado na quarta-feira (23), em São Paulo, reuniu mulheres de diferentes gerações, territórios, profissões e experiências de organização social para discutir a conjuntura eleitoral e uma ampla agenda de direitos. Ao longo da atividade, foram abordados temas como violência de gênero, maternidades diversas, trabalho, direitos reprodutivos, racismo, capacitismo, envelhecimento, migração, violência policial, direitos LGBTQIA+, organização estudantil e participação das mulheres na política.

A diversidade das participantes se refletiu nas experiências apresentadas ao longo do encontro. Estiveram representadas organizações e movimentos ligados às mulheres negras e periféricas, pessoas com deficiência, população trans, lésbicas, mães, trabalhadoras, estudantes, imigrantes, artistas, profissionais da comunicação, da saúde e da educação, além de parlamentares e militantes de diferentes gerações.

O encontro também foi marcado por uma homenagem a Amelinha Teles, referência histórica no enfrentamento à ditadura militar e na construção do movimento feminista no Brasil, que faleceu dias antes da atividade. Usando uma camiseta que estampava o retrato da militante ainda jovem, quando foi presa pelo DOPS, Sâmia ficou emocionada ao lado de Rute Alonso, da União de Mulheres das Promotoras Legais Populares, e de Janaína de Almeida Teles, filha de Amelinha. A trajetória de resistência, a atuação na defesa doa direitos humanos e a contribuição na educação popular foram lembradas como parte de um legado de Amelinha que seguirá presente nas lutas feministas.

Maternidades, trabalho e diferentes formas de ser mulher

A primeira rodada de intervenções apresentou experiências diversas de maternidade, trabalho e organização social.

Thamyris Nunes, fundadora da ONG Minha Criança Trans, abordou a falta de representação de diferentes arranjos familiares e maternidades nos espaços institucionais. Mãe de uma criança trans e de uma criança atípica, ela destacou a necessidade de ampliar políticas públicas capazes de contemplar realidades que ainda permanecem pouco representadas no debate político.

A atriz, comediante e roteirista Lívia La Gatto levou ao encontro um relato pessoal sobre violência e sobre o humor como instrumento de crítica e resistência. Ela contou que foi ameaçada de morte por um homem ligado à cultura red pill depois de publicar uma paródia e disse que a experiência aproximou ainda mais sua trajetória da atuação de Sâmia. “Em vez de morrer, ganhei muitas amigas. A maior delas foi a Sâmia”, relatou. 

A artista afirmou ainda que o medo passou a fazer parte de sua relação com o trabalho, mas que a rede de solidariedade construída com outras mulheres contribuiu para que continuasse ocupando espaços públicos. “O medo também está por trás da coragem, porque não existe coragem sem medo. A gente pode até ter medo, mas se pegar uma na mão da outra, a gente só vai e faz, porque somos muito mais fortes do que imaginamos.”

A comunicadora Ana Aguiar, responsável pelo perfil @anacilada, levou ao encontro a discussão sobre trabalho e consciência de classe a partir de sua experiência como trabalhadora contratada pelo regime CLT e criadora de conteúdo. A intervenção abordou o descontentamento de parte da juventude com as condições de trabalho e as dificuldades enfrentadas por trabalhadoras informais, incluindo a perda de direitos associados à proteção social e à maternidade.

A advogada Mayra Cotta tratou da atuação parlamentar de Sâmia e de seu papel na construção partidária do PSOL, destacando a importância de um mandato que, segundo ela, atua na proteção de pessoas ameaçadas e na defesa de direitos sexuais e reprodutivos.

Da periferia às universidades: violência, trabalho e direitos

As participações também trouxeram experiências diretamente relacionadas ao cotidiano de trabalhadoras e moradoras das periferias.

Lhayss, do Fórum dos Trabalhadores Ambulantes e do coletivo Maré Negra, falou sobre as condições enfrentadas por trabalhadoras e trabalhadores ambulantes no Brás, relatando dificuldades para acessar direitos básicos, além de situações de violência policial, racismo e criminalização de trabalhadores e imigrantes.

Bia Sankofa, presidenta do Instituto Cultural Dandara e cofundadora da Casa Anastácia, abordou a situação de mulheres negras e pobres na Cidade Tiradentes, relacionando violência, desigualdade social, racismo e conflitos habitacionais. Também tratou da violência policial e cobrou respostas para casos de violência contra mulheres negras nas periferias.

Lenny Blue, militante da Idosidade e integrante do Conselho Estratégico da Política de Cuidados, levou ao encontro a discussão sobre a invisibilidade das mulheres negras idosas e as desigualdades previdenciárias que acompanham sua trajetória profissional. A intervenção destacou a necessidade de incluir o envelhecimento e as políticas de cuidado nas discussões sobre direitos das mulheres.

“Eu represento a idosidade, represento as mulheres negras e as velhices plurais que são invisíveis. Nós temos 21% das mulheres negras que trabalham hoje e não contribuem para a previdência. Sabe o que isso quer dizer? Que esses 21%, quando chegarem à minha idade, não terão benefício nenhum”, alertou Lenny.

Já Verônica Oliveira, escritora, comunicadora e criadora do canal Faxina Boa, falou a partir de uma trajetória marcada pelo trabalho precarizado, pela maternidade e pela pobreza. Ela relatou o impacto de políticas públicas em sua própria trajetória e defendeu uma leitura política das experiências cotidianas, inclusive do trabalho doméstico e dos serviços de cuidado.

Mulheres negras, migrantes, lésbicas e trans

A diversidade do encontro também apareceu nas discussões sobre identidade, discriminação e acesso a direitos.

Claudia Manzo, cantora e compositora chilena radicada no Brasil, relatou experiências de invisibilidade e marginalização vividas por mulheres imigrantes, além das dificuldades enfrentadas por artistas independentes. Ela destacou ainda a necessidade de ampliar a presença de mulheres imigrantes nos espaços de representação e decisão.

“Sâmia, você tem um trabalho muito bonito de apoio e de abertura de possibilidades para os imigrantes. As mulheres imigrantes são as que sofrem muito mais violências do que a gente pode imaginar, principalmente a violência patrimonial. Muitas vêm para o Brasil do jeito que conseguem, tentam construir uma vida e sofrem violências por não ter uma rede de apoio, por não ter dinheiro e por não saber falar a língua. São várias situações urgentes que precisam de um olhar”, declarou a integrante da banda BaianaSystem.

Patrícia Araújo, conhecida como Paty Dellii, mulher travesti nordestina, abordou a importância da representação política de travestis, transexuais e homens trans. Em sua fala, também ressaltou a presença de mulheres trans, mães atípicas e mulheres com deficiência dentro do movimento e associou a construção política do encontro à diversidade das experiências femininas.

A produtora cultural Ana Coutinho apresentou sua experiência na criação da festa Forró Sapatão, voltada a mulheres, pessoas trans e não binárias. Ela discutiu a falta de espaços seguros de convivência para mulheres lésbicas e a importância da articulação entre coletivos e iniciativas políticas.

Marcela Tiboni, escritora e ativista LGBT+, trouxe ao debate a experiência da maternidade lésbica. Mãe de gêmeos em uma união homoafetiva, ela falou sobre as barreiras ainda existentes para o reconhecimento jurídico de diferentes configurações familiares.

Mulheres com deficiência e os desafios da inclusão

A discussão sobre deficiência foi apresentada por Julia Piccolomini, presidente da Parada do Orgulho PcD Brasil. Ela abordou o isolamento e o capacitismo enfrentados por mulheres com deficiência desde a educação até o mercado de trabalho, além das barreiras existentes no acesso à saúde e a outros serviços públicos.

“Geralmente, quando pensam em deficiência, trazem um viés de tristeza, mas a gente tem muita beleza, cultura, oportunidade, produtividade e arte. O que precisa mudar não somos nós: é uma sociedade capacitista. Nós não queremos sobreviver em uma sociedade que tolera a gente; a gente quer viver de forma plena”, afirmou. 

Julia também chamou atenção para a relação entre deficiência e violência de gênero e defendeu que o movimento feminista incorpore de maneira mais ampla as experiências e demandas das mulheres com deficiência.

Maternidade, violência e direitos reprodutivos

A maternidade apareceu novamente na intervenção de Ana Cláudia Pinheiro, coordenadora do coletivo Mães da Luta e da Rede de Estudos da Maternidade. Ela apresentou as experiências das duas organizações e discutiu situações de conflito envolvendo guarda dos filhos, violência contra mulheres e obstáculos enfrentados por mães que buscam retomar a formação acadêmica.

Ana Cláudia também citou o PL 2.812/2022, de coautoria de Fernanda Melchionna, Sâmia Bomfim e Vivi Reis, que propõe a revogação da Lei de Alienação Parental. A norma de 2010 estabelece regras para situações consideradas atos de alienação parental, mas tem tido sua aplicabilidade distorcida para favorecer homens violentos e abusivos.

No campo dos direitos reprodutivos, Letícia Ueda, do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde e da campanha Criança Não é Mãe, abordou a luta pela legalização e descriminalização do aborto e a relação construída com o mandato de Sâmia no Congresso Nacional.

Daniele Paulo, trabalhadora do Centro de Referência e Cidadania da Mulher da Brasilândia, também relacionou a atuação política à defesa da democracia e ao enfrentamento à violência contra as mulheres. Em sua intervenção, citou o trabalho na rede de atendimento à violência doméstica e de gênero e defendeu políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.

Já Dani Sampaio, doula, promotora legal popular e educadora social, falou sobre a realidade do extremo sul de São Paulo, incluindo dificuldades de acesso aos serviços de saúde, violência obstétrica e desafios para a atuação das doulas. Ela também relatou iniciativas desenvolvidas em articulação com o gabinete de Sâmia em torno da regulamentação da profissão.

Organização feminista e novas gerações

A participação de jovens e estudantes foi outro eixo do encontro.

Rosa Batista, militante estudantil e diretora da UNE, falou sobre a ansiedade e a angústia provocadas pelo cenário político entre jovens mulheres, mas também sobre a importância dos espaços coletivos de organização e acolhimento. Ekop, coordenadora-geral do DCE Livre da USP, discutiu o crescimento da mobilização feminista entre estudantes e a necessidade de transformar indignação em organização política.

Bruna Biondi, vereadora de São Caetano do Sul, abordou a violência sexual e a luta por justiça e memória em casos envolvendo vítimas de abuso. Ela também destacou a parceria com Sâmia na elaboração do chamado Projeto de Lei do Caso Klein (PL 4.186/2021), já aprovado pela Câmara e em tramitação no Senado. A proposta amplia de três para 20 anos o prazo para que vítimas de crimes sexuais cometidos durante a infância e a adolescência possam entrar com ações de reparação civil após completarem a maioridade.

A atividade contou ainda com a participação de Luana Alves, vereadora de São Paulo, e Monica Seixas, integrante do mandato coletivo das Pretas do PSOL e candidata à reeleição para a Assembleia Legislativa de São Paulo, que falou sobre sua trajetória política ao lado de Sâmia e sobre a relação entre a atuação parlamentar e as lutas construídas nos territórios.

Monica Seixas: “Ela sempre faz isso: chama os de baixo”

Monica Seixas dedicou parte de sua fala a reconstruir a história política que compartilha com Sâmia, desde a militância feminista nas redes sociais até a entrada de ambas na disputa institucional. “Eu tenho o privilégio e a honra de conviver com a Sâmia há mais de uma década”, afirmou.

Ela recordou a mobilização feminista em torno da campanha “Pílula fica, Eduardo Cunha cai” e, posteriormente, a atuação conjunta em Itu, onde movimentos de mulheres organizaram uma mobilização contra problemas relacionados ao abastecimento de água.

Ao lembrar a formação das candidaturas femininas dentro do PSOL em 2016, Monica relatou que Sâmia foi uma das mulheres que participaram daquele processo. “Saímos todas candidatas: eu na minha cidade, e ela venceu a eleição aqui em São Paulo. Eu vim trabalhar com ela aqui, e boa parte da nossa história começa aí.”

Para Mônica, a característica permanece presente na atuação política de Sâmia. “Ela sempre faz isso: chama os de baixo e todos aqueles que organizam a luta a falar por si e de si.” A vereadora também definiu o papel que atribui à atuação parlamentar de Sâmia: “Ela sempre repete para a gente que nós somos megafone, somos tribuna da luta que as pessoas já travam no seu dia a dia.”

A fala também abordou violência contra as mulheres, saúde, feminicídio e os efeitos das mudanças climáticas sobre populações vulneráveis. Mônica citou ainda a necessidade, defendida por ela, de formular políticas que articulem direitos das mulheres e enfrentamento da crise climática.

“Vocalizar as lutas e as vozes”

No encerramento, Sâmia retomou a diversidade apresentada ao longo da atividade e relacionou as diferentes experiências das participantes à atuação de seu mandato. Ao agradecer a presença de todas, ela afirmou que aquela diversidade expressava diferentes dimensões das lutas das mulheres brasileiras.

Em sua fala, Sâmia descreveu o mandato como um instrumento para levar ao Congresso demandas construídas fora dele. “Nós estamos ali para poder vocalizar as lutas e as vozes de quem muitas vezes não é ouvido; para utilizar o mandato como um instrumento de organização das lutas populares e sociais”, afirmou.

Ela também associou sua atuação parlamentar combativa a episódios e pautas recentes do Congresso, como o arquivamento do PL do Estupro (1.904/2024), que pretendia criminalizar quem fizesse aborto nos casos previstos em Lei com penas maiores do que a de seus estupradores. Também a PEC da Blindagem, cujo intuito era estabelecer a necessidade de autorização prévia da Câmara ou do Senado para a abertura de ação penal contra parlamentares. A proposta foi aprovada pela Câmara em setembro de 2025, mas rejeitada por unanimidade na CCJ do Senado após Sâmia mobilizar e protocolar a maior petição pública da história do Congresso, com quase 2 milhões de assinaturas.

Ao abordar o fim da escala 6×1, Sâmia fez um paralelo entre a pauta trabalhista à situação específica das mulheres. “Precisamos conseguir aprovar o fim da escala 6×1 no Congresso Nacional e arrancar essa conquista tão fundamental para os trabalhadores e, sobretudo, para as trabalhadoras brasileiras, que trabalham 7×0, praticamente 24 horas por dia, justamente em função da dupla e da tripla jornada de trabalho.”

A candidata também destacou a relação entre representação institucional e organização social. “O que a gente faz ali dentro é justamente a expressão do que todas vocês fazem todos os dias nos seus territórios, nas suas casas, nos seus locais de trabalho: enfrentando a violência, denunciando a cara do fascismo e repudiando esse projeto de retrocessos e de retirada de direitos.”

Ao longo da fala, Sâmia ainda retomou sua defesa de um projeto político “anticapitalista, feminista, antirracista” e afirmou que a atuação parlamentar, isoladamente, não substitui a organização dos movimentos e das lutas sociais. “Porque a gente não fraqueja na luta e sabe que o Congresso Nacional, por si só, não se basta: é necessário convocar e mobilizar!”, afirmou.

O Mulheres com Sâmia 5000 foi realizado na Casa Sincopada, na Bela Vista, e integrou a agenda da campanha de Sâmia à reeleição para a Câmara dos Deputados.

Fotos: Camila Santana/ASCOM