Sâmia reúne especialistas e movimentos para construir propostas por uma velhice com direitos e dignidade
Candidata defende que o envelhecimento é uma questão transversal e precisa ser enfrentado a partir de uma perspectiva anticapitalista e de participação popular
A candidata à reeleição para deputada federal Sâmia Bomfim reuniu, na terça-feira (18), pessoas idosas, familiares, profissionais, especialistas e representantes de movimentos sociais para uma atividade de construção coletiva de seu programa de campanha. A plenária “Envelhecer pede coragem”, realizada ao lado da vereadora de Sâo Paulo Luana Alves e da deputada estadual Monica das Pretas – também postulante à releição – , debateu prioridades para garantir um envelhecimento com dignidade, com acesso à saúde, renda, moradia, mobilidade, cultura, convivência e proteção contra a violência e todas as formas de discriminação.
A atividade integrou o ciclo de construção coletiva do programa da candidatura e partiu da defesa de que as pessoas idosas devem ser reconhecidas como protagonistas das decisões que afetam suas vidas. Entre os principais temas discutidos estiveram a defesa dos serviços públicos, da seguridade social e da Política Nacional de Cuidados, além da necessidade de enfrentar o etarismo e as desigualdades que atravessam o envelhecimento. A plenária também abordou pautas específicas da população idosa LGBTQIA+, das mulheres, da população negra e das pessoas autistas.
O médico geriatra Milton Crenitte, doutor em Ciências pela USP e coordenador médico do Ambulatório de Sexualidade da Pessoa Idosa do HCFMUSP, conduziu o debate. Para ele, a proposta da campanha deve partir da compreensão de que o envelhecimento não é uma questão restrita às pessoas com 60 anos ou mais, mas atravessa todas as gerações e diferentes dimensões da vida.
O especialista destacou que as políticas de envelhecimento precisam ultrapassar os limites da assistência social e da saúde, envolvendo educação, gênero, cultura, trabalho e meio ambiente. A partir dessa perspectiva, uma cidade preparada para o envelhecimento também é uma cidade mais adequada para crianças, gestantes, pessoas com deficiência e toda a população.
Uma das fundadoras históricas do Movimento Negro Unificado (MNU), a advogada e ativista Lenny Blue, criadora do conceito de “idosidade”, defendeu que o envelhecimento seja nomeado e vivido sem eufemismos, com orgulho e como uma pauta política, destacando a necessidade de enfrentar a forma como a sociedade invisibiliza a velhice. “Eu tenho muita dificuldade para dizer que eu não era uma militante solitária da idosidade, porque todo lugar que eu vou, eu só falo disso”, afirmou a militante.
A fala de Lenny também reforçou a importância de reconhecer as diferentes experiências de envelhecimento e construir políticas públicas que respondam a essa diversidade. O debate destacou que a velhice não pode ser tratada como uma experiência homogênea e que raça, gênero, classe social, orientação sexual e condições de saúde produzem desigualdades distintas ao longo da vida.

Envelhecer em uma sociedade desigual
Sâmia ressaltou que o processo eleitoral deve ser uma oportunidade para promover debates politizados e programáticos sobre os desafios da sociedade, rejeitando uma abordagem meramente pragmática da pauta da população idosa: “É muito importante que a gente debata sobre envelhecer, claro, sobre a população idosa, mas sobre essa outra concepção de que a gente envelhece desde o momento que a gente nasce.”
Para a candidata, discutir o envelhecimento exige também questionar as estruturas econômicas e sociais que produzem pobreza, solidão, adoecimento e falta de perspectivas. A parlamentar relacionou esse debate aos efeitos da reforma da Previdência, que ampliou o tempo de contribuição e reduziu benefícios, e alertou para os desafios colocados pelo envelhecimento da população brasileira para a seguridade social.
Sâmia também destacou a experiência e a memória acumuladas pelas gerações que vieram antes. Ao citar a trajetória de parlamentares como Luiza Erundina, defendeu que maturidade e experiência não podem ser tratadas como obstáculos à participação política, mas como patrimônio coletivo. A memória de quem lutou pela redemocratização, segundo ela, também é fundamental para enfrentar o avanço de projetos autoritários no presente.
Outro eixo central da atividade foi a Política de Cuidados. Sâmia destacou como uma conquista da atual Legislatura o reconhecimento do cuidado como direito e também como trabalho, e defendeu que essa agenda avance com financiamento e responsabilidade do Estado. A discussão chamou atenção para o fato de que, além de crianças, pessoas com deficiência e idosos que precisam de cuidado, muitos idosos também exercem o papel de cuidadores de familiares e de outras pessoas idosas.
Diversidade, saúde e direito à cidade
A plenária também trouxe para o centro do debate questões ainda pouco presentes nas políticas públicas. A inclusão de pessoas idosas LGBTQIA+, a garantia do direito de casais permanecerem juntos em instituições de acolhimento, o envelhecimento de pessoas autistas sem diagnóstico e as demandas específicas das mulheres idosas estiveram entre os temas levantados.
O debate sobre o autismo na velhice evidenciou uma lacuna histórica de diagnóstico e atendimento. Participantes defenderam que o SUS desenvolva estratégias de rastreamento e acompanhamento, além da criação de espaços de socialização e residências protegidas para pessoas autistas idosas.
Também foram discutidas a regulamentação da profissão de gerontólogo, a necessidade de ampliar equipes capacitadas para atuar de forma biopsicossocial e a importância de políticas que articulem saúde, assistência, cultura, lazer, transporte e convivência.
O direito à cidade apareceu ainda em discussões sobre mobilidade, acessibilidade, equipamentos públicos e espaços de convivência. Participantes ressaltaram que a ausência de opções de lazer, cultura e socialização pode aprofundar o isolamento social de pessoas idosas, enquanto Sâmia defendeu alternativas presenciais para o acesso a benefícios e serviços públicos, evitando que a digitalização obrigatória produza novas formas de exclusão.

Visão ampla de sociedade
Entre os encaminhamentos discutidos estiveram a criação de uma linha de financiamento para a Política Nacional de Cuidados, a ratificação da Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos das Pessoas Idosas, novas audiências públicas e o acompanhamento da regulamentação da gerontologia. Para Sâmia, a atividade deve ter continuidade na atuação parlamentar e na mobilização política, transformando as contribuições apresentadas em propostas e iniciativas concretas. A candidata defendeu que o debate sobre o envelhecimento seja incorporado a uma visão mais ampla de sociedade, baseada no cuidado, na solidariedade e na garantia de direitos.
“Não dá para falar de idosidade, envelhecimento digno sem questionar o capitalismo assim, sem questionar profundamente a sociedade”, concluiu.
A plenária “Envelhecer pede coragem” integra o processo de construção coletiva do programa da candidatura de Sâmia para as eleições de 2026. A proposta é transformar as experiências e reivindicações apresentadas por pessoas idosas, familiares, profissionais e movimentos sociais em compromissos políticos para o próximo mandato.