Pensar a relação entre seres humanos e outras espécies é refletir sobre o tipo de sociedade que queremos construir. A defesa animal não deve ser vista como uma pauta secundária ou um tema restrito à proteção de cães, gatos e outras espécies inseridas no conceito de “pet”. Trata-se de uma questão ética, ambiental, sanitária e civilizatória que exige do Estado e da sociedade uma nova compreensão sobre nossa convivência com todos os seres sencientes.
Partimos da ideia de que uma perspectiva socialista de transformação da sociedade deve pressupor o enfrentamento de todas as formas de exploração e violência. Isso significa reconhecer que a superação da dominação entre seres humanos deve caminhar ao lado da construção de uma relação mais equilibrada, responsável e compassiva com as demais espécies, compreendendo que uma sociedade fundada na solidariedade, no cuidado e na dignidade da vida não pode naturalizar a crueldade contra os animais, ignorar sua capacidade de sentir dor e sofrimento nem desconsiderar seu papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas.
Como sabemos, a violência contra animais é um problema profundo no Brasil. Casos como o do cachorro Orelha, que mobilizou a opinião pública e revelou a gravidade da violência cometida contra animais comunitários, ampliaram o debate social sobre os maus-tratos e evidenciaram a necessidade de políticas públicas mais efetivas de proteção animal. Nos últimos anos, esse cenário tornou-se ainda mais preocupante com a proliferação, nas plataformas digitais, de conteúdos que exibem, incentivam ou até monetizam a crueldade contra animais, transformando a violência em espetáculo e fonte de lucro. O enfrentamento dessa realidade exige o aperfeiçoamento da legislação, a responsabilização dos autores e das plataformas e o fortalecimento da atuação dos órgãos de investigação e fiscalização.
A defesa animal, contudo, não se limita aos casos de violência contra animais domésticos e comunitários. Ela envolve uma reflexão mais ampla sobre uma relação historicamente marcada pela exploração e pelo sofrimento imposto às demais espécies, expressa também na utilização de animais em atividades de trabalho, tração e entretenimento, na ameaça à fauna silvestre, na destruição de habitats e nas práticas cruéis ainda presentes nas cadeias de produção agropecuária. Nesse âmbito, a exportação de animais vivos destinados ao abate representa uma das formas mais cruéis dessa lógica de exploração, submetendo milhares de animais a longos períodos de confinamento e transporte em condições de extremo sofrimento, além de produzir impactos ambientais e reforçar um modelo econômico que reduz os animais à condição de mercadoria. O enfrentamento dessas práticas e dos impactos negativos decorrentes da ação humana deve constituir uma preocupação permanente da atuação do mandato, de modo a construir novos marcos para nossa relação com as demais espécies.
A defesa animal trata-se, portanto, de um tema transversal, envolvendo políticas públicas de cuidado, assistência veterinária, castração, adoção responsável e combate aos maus-tratos de animais domésticos e de trabalho; o combate à caça ilegal e ao tráfico de animais silvestres; o controle de espécies invasoras e a proteção da fauna em rodovias e empreendimentos, com foco na preservação da biodiversidade; e o estabelecimento de padrões rigorosos de bem-estar animal no âmbito da indústria, o que envolve a produção de carne, ovos, laticínios e cadeias produtivas em geral. Construir uma nova relação entre seres humanos e demais espécies deve envolver todas essas esferas de interação e, para isso, é indispensável estabelecer marcos legais e políticas públicas baseadas no respeito à vida, ao bem-estar animal e à preservação da biodiversidade.
Nosso mandato tem uma atuação pontual na pauta da defesa animal, especialmente por meio da destinação de recursos orçamentários para Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), iniciativas voltadas à proteção da fauna e projetos de educação ambiental. Na próxima legislatura, o objetivo é avançar de forma mais estruturada nessa agenda, tornando o mandato um agente ativo na defesa de propostas em tramitação no Congresso Nacional, na elaboração de novos projetos de lei, na formulação de políticas públicas junto ao Poder Executivo e na indicação de emendas parlamentares destinadas a pesquisas, projetos e ações voltadas à proteção animal.
Para isso, nosso programa de defesa animal está estruturado em três grandes eixos: a proteção dos animais domésticos, comunitários e inseridos em atividades humanas; a preservação da fauna silvestre; e a redução do sofrimento dos animais explorados nas cadeias produtivas.
Defendemos
Proteção dos animais domésticos, comunitários e inseridos em atividades humanas
- Aperfeiçoamento da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) e do Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) para combater os maus-tratos e responsabilizar autores e plataformas pela divulgação, incentivo ou monetização de conteúdos de crueldade contra animais
- Criação do Disque Nacional de Proteção Animal para recebimento de denúncias e integração entre órgãos públicos
- Priorização orçamentária para ampliação e fortalecimento de políticas de castração, identificação e controle populacional ético de cães e gatos
- Priorização orçamentária para expansão de hospitais veterinários públicos, atendimento gratuito e programas de assistência veterinária
- Fortalecimento de programas de adoção responsável, acolhimento temporário e apoio às redes e movimentos de proteção animal
- Apoiar medidas e iniciativas para a superação de práticas de entretenimento que submetam animais ao sofrimento, como rodeios, vaquejadas e eventos similares, incentivando a valorização de manifestações culturais sem exploração animal
- Apoiar medidas de proteção aos animais utilizados em atividades de trabalho e transporte, com atenção especial aos equídeos e demais animais utilizados para tração
- Proposição e apoio a políticas públicas e projetos voltados à construção da convivência ética entre seres humanos e outras espécies, promovendo a educação e a conscientização sobre a dignidade animal, o combate aos maus-tratos e a superação de estigmas associados a determinadas espécies, pelagens ou características dos animais
Proteção da fauna silvestre e conservação ambiental
- Fortalecimento institucional e orçamentário do IBAMA, do ICMBio e dos demais órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental, pelo combate ao tráfico de animais silvestres e à caça ilegal
- Apoio à criação do Plano Nacional de Segurança Viária para a Fauna Silvestre e do Cadastro Nacional de Acidentes com Animais Silvestres, em tramitação no Congresso Nacional (PL 466/2015, na Câmara dos Deputados, e PL 2.550/2026, no Senado Federal), com o objetivo de prevenir atropelamentos, monitorar ocorrências e subsidiar a implementação de medidas de proteção da fauna em rodovias, como passagens de fauna, sinalização e adequações de infraestrutura
- Fortalecimento das políticas de prevenção, monitoramento e controle de espécies exóticas invasoras, com base em evidências científicas, bem-estar animal e atuação integrada dos órgãos ambientais
- Priorização orçamentária e destinação de recursos para Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), Centros de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) e instituições de pesquisa e conservação da fauna
- Garantia de medidas de proteção da fauna em políticas de infraestrutura e desenvolvimento econômico, integrando ações de proteção animal às políticas de conservação ambiental e combate ao desmatamento
- Fortalecimento de iniciativas de proteção aos jumentos e demais asininos, combatendo o abandono, a exploração e o abate
- Incentivo a pesquisas para conservação de espécies ameaçadas e recuperação da fauna
Redução do sofrimento dos animais nas cadeias produtivas
- Avançar na formulação de uma Política Nacional de Transparência e Monitoramento das Condições de Criação, Transporte e Abate de Animais, fortalecendo a fiscalização, o acesso público a informações e os mecanismos de controle social, visando à redução do sofrimento animal e ao combate de práticas cruéis
- Apoiar a revisão da legislação para proibir o transporte internacional de animais vivos destinados ao abate e avaliar alternativas ao transporte de longa distância que submeta animais a sofrimento extremo, fortalecendo a transparência e a fiscalização, com controle rigoroso desse setor
- Apoio a modelos produtivos mais sustentáveis, que conciliem segurança alimentar, proteção ambiental e respeito aos animais
- Incentivo a pesquisas e tecnologias voltadas à redução do sofrimento animal
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