A concentração da propriedade da terra permanece como uma das maiores e mais profundas desigualdades estruturais do Brasil. Apesar de a Constituição Federal de 1988 determinar que a propriedade rural deve cumprir sua função social, o país ainda não implementou um verdadeiro Programa Nacional de Reforma Agrária capaz de democratizar o acesso à terra, promover justiça social e impulsionar um modelo de desenvolvimento sustentável.
Embora tenham ocorrido diferentes ciclos de criação de assentamentos rurais, nenhum governo brasileiro executou uma reforma agrária estrutural. O que ocorreu, em grande medida, foi a conquista de terras por meio da intensa mobilização e da luta dos movimentos sociais do campo, sindicatos, organizações populares e das milhares de famílias acampadas que, ao longo de décadas, reivindicaram o cumprimento do direito constitucional de acesso à terra.
Os governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) registraram os maiores números de famílias assentadas desde a redemocratização. Segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), entre 1995 e 2002 foram assentadas aproximadamente 540 mil famílias, enquanto entre 2003 e 2010 esse número alcançou cerca de 614 mil famílias.
Entretanto, esses números são objeto de questionamentos por pesquisadores e movimentos sociais, pois incluem regularizações fundiárias, reassentamentos, reconhecimento de assentamentos antigos e outras modalidades que não representam necessariamente a criação de novos projetos de reforma agrária.
A partir de 2011, o ritmo de criação de novos assentamentos caiu drasticamente. Nos governos posteriores, especialmente entre 2019 e 2022, praticamente não houve criação de novos assentamentos rurais, aprofundando o passivo histórico da reforma agrária brasileira.
Atualmente, estima-se que existam mais de 100 mil famílias acampadas em todo o Brasil aguardando acesso à terra, vivendo em condições precárias às margens de rodovias, em áreas ocupadas ou em acampamentos organizados por movimentos sociais.
Além disso, milhões de trabalhadores rurais, agricultores familiares sem terra e moradores das periferias urbanas dependem de políticas públicas que promovam a inclusão produtiva, geração de renda e segurança alimentar.
Ao mesmo tempo, o Brasil apresenta uma das maiores concentrações fundiárias do mundo. Segundo o Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), menos de 1% dos estabelecimentos rurais controlam cerca de metade da área agrícola do país, enquanto milhões de brasileiros possuem pouca ou nenhuma terra para produzir.
Essa realidade demonstra que a democratização do acesso à terra continua sendo uma necessidade econômica, social, ambiental e estratégica para o desenvolvimento nacional.
Uma política moderna de reforma agrária deve estar integrada à produção de alimentos saudáveis, à preservação ambiental, à geração de emprego e renda, ao fortalecimento da agricultura familiar, da agroecologia e das cooperativas de produção, contribuindo também para reduzir o êxodo rural e a desigualdade social.
Sâmia sabe da importância e da urgência da defesa dos movimentos sociais e da luta pela reforma agrária. Como titular da bancada do PSOL na CPI do MST, em 2023, ela se posicionou contra as tentativas de criminalização do movimento e defendeu o direito de organização e de luta dos trabalhadores do campo. Na CPI, Sâmia denunciou a aliança entre bolsonaristas e ruralistas para tentar criminalizar o MST e os movimentos sociais, denunciou o trabalho escravo em latifúndios, o uso de agrotóxicos que leva veneno para as famílias e o não cumprimento da função social da propriedade. Para Sâmia, lutar é um direito, e a reforma agrária é fundamental para alimentar milhões que passam fome, gerar renda e promover justiça social.
Defendemos
- Destinação de 1% dos orçamentos da União, dos estados e dos municípios para investimentos em políticas de reforma agrária, desenvolvimento dos assentamentos e fortalecimento da agricultura familiar.
- Elaboração e implementação de um Novo Programa Nacional de Reforma Agrária, com metas plurianuais de obtenção de terras, assentamento de famílias e investimentos em infraestrutura.
- Atualização imediata dos índices de produtividade rural, atualmente defasados, para cumprimento do disposto no art. 185 da Constituição Federal quanto à função social da propriedade.
- Realização de uma ampla jornada nacional de vistorias em imóveis rurais improdutivos, identificando áreas passíveis de desapropriação para fins de reforma agrária.
- Estabelecimento de limites para a excessiva concentração da propriedade da terra, promovendo uma política fundiária mais justa e democrática, em conformidade com os princípios constitucionais da função social da propriedade.
- Priorização do assentamento das famílias efetivamente acampadas e inscritas nos cadastros oficiais, integrando as informações do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) e do Número de Identificação Social (NIS) ao sistema de seleção dos beneficiários da reforma agrária, considerando a condição socioeconômica das famílias, o tempo de inscrição no NIS, a permanência nos cadastros oficiais e o histórico de organização e luta pelo acesso à terra. O processo deve garantir critérios transparentes, objetivos e nacionais, evitando burocracias que dificultem o acesso às políticas públicas e assegurando prioridade às famílias que aguardam há mais tempo pelo direito constitucional à terra.
- Garantia de que todos os assentamentos recebam infraestrutura básica, incluindo habitação, energia elétrica, abastecimento de água, estradas, internet, escolas, unidades de saúde e assistência técnica permanente.
- Ampliação do crédito rural, do seguro agrícola, dos Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e da participação da agricultura familiar no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
- Incentivo à agroindustrialização, ao cooperativismo, à comercialização direta e à agroecologia como estratégias para aumentar a renda das famílias assentadas e fortalecer a soberania alimentar do país.
Reforma Agrária para desenvolver o Brasil
A reforma agrária deve ser compreendida como uma política pública permanente e estratégica de desenvolvimento nacional, voltada à redução das desigualdades, ao combate à pobreza, à democratização do acesso à terra, à produção de alimentos saudáveis, à proteção ambiental e à garantia da dignidade para milhares de famílias trabalhadoras que ainda aguardam o cumprimento do seu direito constitucional à terra.
Mais do que uma política de distribuição de terras, a reforma agrária representa um projeto de desenvolvimento capaz de fortalecer a agricultura familiar, gerar emprego e renda, garantir segurança alimentar e construir um Brasil socialmente mais justo e ambientalmente sustentável.
O que Sâmia fez
CPI do MST - Maio a setembro de 2023
Em decorrência de sua atuação na defesa dos trabalhadores sem terra, sofreu pedido de cassação de seu mandato perante o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Na defesa de seu e de outros mandatos ameaçados, mobilizou atos públicos em conjunto com o MST em diversos estados brasileiros.
- Sâmia atuou como membro titular desta CPI e atuou incansavelmente no combate ao autoritarismo do Presidente e do Relator na condução dos trabalhos, na perspectiva de assegurar prerrogativas investigativas aos parlamentares progressistas e defensores da reforma agrária.
- Defendeu a não votação de mais de 70 requerimentos formulados pelos parlamentares da extrema-direita que tentavam criminalizar os movimentos de trabalhadores da terra e outros diversos movimentos que sequer tinham ligação com o MST.
- Nessa comissão, Sâmia também denunciou o “agrogolpismo”, ou seja, a presença de membros da CPI, defensores do agronegócio na Comissão e que apenas compuseram o colegiado para defender os interesses dos financiadores da Frente Parlamentar Agropecuária, que tem como apoiadores empresários do agro, grileiros de terra e invasores de terras indígenas.
- Seu trabalho teve como ferramentas tanto requerimentos de convocação de ruralistas, financiadores do agronegócio, grileiros de terras e invasores de terras indígenas como pedidos de abertura de inquérito contra abuso de autoridade, advocacia administrativa e violação de domicílio, praticados durante diligência da CPI em assentamento do MST.
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