A juventude brasileira é um dos setores sociais mais afetados pelas múltiplas crises que atravessam o nosso tempo. A crise econômica e o desemprego, a crise ambiental e a crise de representatividade política deixam jovens de todo o país sem perspectiva de futuro.
A precarização do trabalho, da educação e dos serviços públicos atinge a juventude de forma especialmente dura. A crise climática coloca em risco objetivo o direito das novas gerações a um futuro habitável, ao mesmo tempo em que o sucateamento da educação, da saúde, da cultura, da segurança e dos demais serviços públicos restringe a possibilidade de viver com dignidade. Esse quadro atinge com mais profundidade a juventude negra, periférica, indígena, LGBTQIAPN+ e as mulheres jovens, que enfrentam cotidianamente os efeitos de uma sociedade estruturada no racismo, na LGBTfobia e na misoginia.
Tivemos uma vitória fundamental contra a extrema direita em 2022 e, neste ano, voltaremos à batalha contra o bolsonarismo ao lado de Lula e de todo o campo progressista, conscientes de que barrar esse setor é condição para não retomarmos o ciclo brutal de ataques aos direitos sociais e às liberdades democráticas. Ainda assim, é preciso reconhecer que o governo que ajudamos a eleger teve dificuldades notáveis para oferecer perspectivas de futuro à juventude brasileira. Essa lacuna tem sido explorada pela extrema direita, que consegue canalizar a indignação e a frustração de jovens em todos os cantos do país para o seu projeto autoritário.
Parte dessa dificuldade se explica pelo cenário de correlação de forças em que o governo atua: um Congresso majoritariamente conservador, uma disputa orçamentária permanente e a herança de anos de desmonte das políticas públicas deixada pelos governos anteriores. Mas é preciso também apontar os limites do próprio Arcabouço Fiscal, que impõe restrições reais à expansão do investimento em educação e saúde. As instituições federais de ensino seguem com orçamentos insuficientes para abrir novas vagas e contratar docentes e servidores. Os efeitos dessa combinação não param na educação: também enfraquecem o Sistema Único de Saúde e travam a expansão de equipamentos culturais.
A inserção da juventude no mercado de trabalho é hoje uma das faces mais duras da desigualdade brasileira. Os jovens encontram um mercado dominado pela informalidade, pela terceirização, pela pejotização e pelo avanço constante da precarização. Para milhões deles, o primeiro emprego deixou de ser porta de entrada para a autonomia e passou a significar jornadas exaustivas, insegurança, ausência de estabilidade e remuneração insuficiente.
É urgente, portanto, avançar com a aprovação do fim da escala 6×1 no Senado e aprofundar o debate sobre os direitos dos trabalhadores de aplicativo, garantindo remuneração mínima e proteção previdenciária. Depois da aprovação do PL 255/2023, de autoria da deputada Sâmia Bomfim, que garante a contagem do tempo de pesquisa para aposentadoria e proteção social aos pós-graduandos, é hora de avançar também na relação entre estudo e trabalho dos graduandos, com a aprovação do PL 1.714/2026, também protocolado por Sâmia, que reformula a Lei do Estágio (Lei nº 11.788/2008) e assegura direitos como FGTS, 13º salário, férias remuneradas e um piso da bolsa-estágio vinculado ao salário mínimo.
A mesma juventude que ocupa hoje os postos de trabalho mais precarizados é a que segue sendo assassinada pela violência policial em todo o Brasil. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, mais de 82% das pessoas mortas pela violência policial eram negras, e destas, 71% tinham entre 15 e 29 anos. Isso é consequência direta da guerra às drogas e de uma lógica de segurança pública voltada à eliminação de corpos entendidos como marginais.
Em São Paulo, a juventude vive um processo crescente de expulsão dos espaços públicos, seja pela falência da educação, pela violência ou pelo desmonte dos espaços de lazer e dos equipamentos culturais da cidade. A CPI dos Pancadões, a demolição do Samba da Cruz e do Teatro de Contêiner e a tentativa de privatização da Praça Roosevelt são expressões de um mesmo projeto: esvaziar a cidade de suas vivências populares e culturais, empurrando a juventude periférica para fora dos lugares que ela mesma construiu como seus. Há, portanto, uma disputa em curso pelo direito à cidade, e a juventude está no centro dela. Recuperar os espaços públicos como territórios de cultura e lazer, e não como alvo de repressão ou de especulação imobiliária, está no centro deste programa.
É esse o sentido da nossa disputa. Não é sobre escolher entre dois projetos igualmente ruins, é sobre entender que o fim da escala 6×1, o fim da pejotização disfarçada de empreendedorismo, o direito de estudar sem precisar escolher entre bolsa e sobrevivência, o fim da política de extermínio que mata jovens negros e periféricos e o direito de ocupar a cidade sem ser tratado como ameaça são centrais para a disputa da juventude hoje. A juventude brasileira nunca teve isso garantido. Por isso, um programa capaz de disputar a juventude é central para a derrota da extrema direita.